Alunos especiais, com deficiência física, mental ou mesmo os superdotados, precisam de professores habilitados a ajudar em seu desenvolvimento, mas o número de profissionais especializados no mercado ainda não atende a essa demanda. A Universidade de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, é uma das poucas instituições do país que oferece licenciatura em Educação Especial, e a equipe do Globo Universidade foi conferir de perto o curso. Atualmente os alunos podem escolher estudar de dia, à noite ou na modalidade a distância. O curso diurno é o mais antigo, tem 30 anos, e o noturno existe desde 2009. Segundo a coordenadora Nara Joyce Wellausen Vieira, a licenciatura em Educação Especial representa um compromisso da UFSM com o desenvolvimento regional, atuação e atenção às mudanças sociais.
“O objetivo é constituir-se como uma instituição reconhecidamente protagonista, parceira e disseminadora de ideias e formadora de cidadãos críticos, capazes e atuantes no cenário socioeconômico. A organização destes espaços de aprendizagem leva em conta a situação real do alunado, que na sua grande maioria trabalha em diferentes áreas durante o dia, implicando, desta forma, pensar a atividade pedagógica em tempo, espaço e formatação diferentes. O foco do curso noturno é formar professores para atuar no campo da educação especializada de pessoas com deficiência visual, surdocegueira (incapacidade total ou parcial de audição e visão, simultaneamente), transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades/superdotação e deficiência intelectual. Os cursos diurno e a distância formam professores para atuar com a educação de surdos, de crianças com déficit cognitivo e dificuldades de aprendizagem”, explica a coordenadora.
De acordo com Nara, a Educação Especial é uma área do conhecimento transversal a todos os níveis e modalidades de ensino e como tal consiste em um conjunto de paradigmas que alicerçaram os métodos, técnicas e procedimentos de intervenção nesta área de estudo e pesquisa.
“A grade curricular que compõe a formação inclui várias disciplinas, como História e Sociologia da Educação; Sociologia e Antropologia da Educação; História e realidade do atendimento em Educação Especial, entre outras. Temos também Pesquisa em Educação, considerando que o professor dessa área precisa se constituir pesquisador e produtor de conhecimento para que possa atuar com práticas inovadoras; Fundamentos Teóricos da Prática em Educação Especial, com disciplinas que enfocam o histórico e as alternativas metodológicas e didáticas de atendimento educacional para pessoas com necessidades especiais; e Prática em Educação Especial, que se caracteriza pelos estágios supervisionados nos quais os estudantes são colocados em atuação em diferentes contextos de atendimento", explica.
Segundo o professor José Luis Padilha Damilano, o curso de Educação Especial a distância teve uma primeira oferta em 2005, encerrando em 2009, com 102 concluintes de uma turma inicial com 120 alunos, hoje, em sua maioria, concursados e trabalhando nas redes de ensino (municipal, estadual e privada).
“Essa primeira oferta de curso aconteceu nos polos de Santana do Livramento, Bagé e Uruguaiana - cidades localizadas na metade sul do Rio Grande do Sul, considerada uma região menos desenvolvida e sem, na época, oferta de ensino superior gratuito. Tivemos uma segunda edição, em 2010, nos polos de Três Passos, Santana do Livramento e Foz do Iguaçu/PR, com oferta de 150 vagas, ingresso de 123 alunos e hoje, finalizando o sexto semestre (são oito semestres no total), estão 82 alunos matriculados, o que corresponde a um abandono de 33,33%, considerado abaixo do que comumente ocorre em cursos na modalidade a distância. Em 2012, houve nova oferta do curso, agora em quatro polos: Sobradinho, Novo Hamburgo, Balneário Pinhal e Santa Vitória do Palmar (todas no RS), com disponibilização de novas 150 vagas, das quais foram preenchidas 137 vagas. Ainda não temos o total de abandonos (falta consolidação de números, considerando os dois primeiros semestres). O ingresso na graduação acontece via processo seletivo universal (vestibular) e via Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica (PARFOR). Os polos de apoio presencial devem contar com uma infraestrutura que ofereça, entre o
O professor da Educação Especial tem um papel totalmente diferente dos demais profissionais, afirma Nara. “A docência não se limita ao ‘dar aula para desenvolver conteúdos’, mas sim em mediar/avaliar como se estrutura a aprendizagem e a cognição destes alunos e favorecer condições para que estas se desenvolvam da melhor forma possível. Esta avaliação/mediação implica também conceber a intervenção em todo o sistema escolar ou em qualquer outra instituição que atenda esses estudantes, orientando os colegas professores, gestores, servidores da escola e familiares dos alunos. Inclusão educacional é um paradigma de pensamento e que não se resolve somente na troca de espaço (matricular ou não na escola comum), mas sim na predisposição/abertura de toda comunidade escolar/sociedade para trabalhar com o diferente. O educador especial tem que ter consciência deste processo e perceber a importância de sua intervenção neste sistema que está além da sala de recursos”.
Para os interessados em se profissionalizar na área, o curso noturno em Educação Especial na UFSM oferece 45 vagas anuais, sempre no segundo semestre de cada ano e o diurno em torno de 50. Na modalidade EaD são 150 vagas; porém a oferta não é anual. O regime do curso noturno é o sistema seriado semestral, com duração de nove semestres com 40 disciplinas obrigatórias e três optativas, perfazendo uma carga horária total de 3.220 horas. Até o segundo semestre de 2012, existiam quatro turmas no curso, totalizando 219 alunos, sendo que até o momento nenhum acadêmico concluiu a graduação. No curso a distância são oito semestres, 42 disciplinas, com carga horária final de 3.030 horas. O curso diurno oferece 45 vagas anuais, tem duração máxima de 14 semestres e carga horária total de 3.060 horas.
A Universidade Federal de Santa Maria começou a ser construída em 1959 e logo foi criado o Instituto da Fala, transformado em Departamento da Fala em 1970, destinado ao desenvolvimento do ensino, à pesquisa e à extensão na área da audição, fala e linguagem. Entre os professores que se destacaram na área ainda incipiente da Educação Especial estava o médico otorrinolaringologista Reinaldo Fernando Coser. Em decorrência do grande número de casos de surdez que apareciam em seu consultório, sem possibilidades de intervenção cirúrgica para curar o deficiente, o Dr. Coser empenhou-se em trazer para a UFSM a formação de recursos humanos na área, ou seja, a formação de professores especializados na educação de surdos.
Em 1984, o Curso de Educação Especial passou a contar com as duas habilitações: Habilitação em Deficientes Mentais e Habilitação em Deficientes da Audiocomunicação – Licenciatura Plena. A partir de janeiro de 2004, o Curso de Educação Especial da UFSM deixa de oferecer as duas habilitações e, em concordância com as resoluções e pareceres do Ministério da Educação (MEC), a formação nas carreiras pedagógicas do educador especial da UFSM é de um profissional generalista com formação em 3º grau em: “Déficit Cognitivo”, “Dificuldade de Aprendizagem” e “Surdez”.
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