O Pará reza neste fim de semana do Círio de Nazaré. E o Pará dança também. Dança uma variedade de ritmos genuínos feitos em casa, lambada, brega, carimbó, gêneros que estão para a capital paraense como samba está para o Rio de Janeiro ou o blues para New Orleans. Completando meio século este ano, a lambada foi celebrada nesta sexta-feira (9) no festival Lambateria, referência na agenda cultural da cidade há mais de uma década.
Não se sabe exatamente quando a lambada passou a definir, com esse nome, um gênero musical. Mas há registros históricos. Os mais antigos do interior do Pará contam que nos anos 1970, em algumas localidades, era possível sintonizar rádios caribenhas. A lambada nasce, então, de uma fusão do carimbó com ritmos latinos como a cumbia e o merengue.
Em 1976, o cantor e compositor paraense Pinduca lançou o que se considera a primeira gravação de um a lambada — "Lambada (sambão)", do disco "No embalo do Carimbó e Sirimbó Volume 5". Dois anos depois, Mestre Vieira lançou o primeiro LP inteiramente dedicado ao gênero, "Lambada das Quebradas", outro marco fundamental. Pinduca e Vieira são considerados, portanto, pais da lambada.
Félix Robatto tem Mestre Vieira tatuado no braço esquerdo. "Quando eu toco errado, ele me olha julgando", brinca o guitarrista e produtor musical de 44 anos. Um dos músicos mais influentes do Pará, embaixador da guitarrada, foi ele quem produziu "Treme", o primeiro álbum solo de Gaby Amarantos, cantora que ele já conhecia desde adolescente, dos tempos da banda Zarah, na qual ele era percussionista e, Gaby, vocalista.
Também foi Robatto quem criou a Lambateria, uma festa onde ele toca, claro, muita lambada, sempre às quinta-feiras. Deu tão certo que, além da festa, veio o festival.
— O festival veio como se fosse uma culminância das festas — diz Robatto ao GLOBO, num almoço na capital paraense. — A gente faz festa toda semana, mas tem um dia, que é o dia da culminância, que a gente consegue agregar mais coisas, fazer intercâmbio com outros países, sabe? E a gente conseguiu fazer muita coisa. A Rossy War, cara... A banda Calypso se inspirou muito no trabalho da Rossy War.
Robatto exalta a cantora peruana de 57 anos que foi uma das atrações do Lambateria. Rossy War chegou ao evento toda de vermelho, com chapéu de vaqueira, e foi recebida como uma grande diva pelo público local. Teve gente chorando quando viu ela de perto. Houve uma longa fila pra fazer fotos com a artista, que atendeu a todos gentilmente, um por um.
— Ela é a rainha da tecnocumbia. A Rossy War começou a fazer sucesso aqui em meados da década de 1990. Tocava muito na rádio. Todas as bandas de baile tocavam as músicas da Rossy War. A Joelma se inspirou muito, mas muito mesmo, na Rossy War. E a tecnocumbia tem uma semelhança muito grande com a lambada — explica Robatto.
— Gosto muito da Joelma porque ela é uma mulher guerreira, que segue em frente sozinha. É muito bonita, e também é uma referência para muitas jovens e muitas mulheres, tanto aqui quanto em outros lugares. Isso é muito bom, não é? — diz a peruana, que veio se apresentar pela terceira vez em Belém. — Na primeira vez que vim, também coincidiu com a data do Círio. Consegui ver a Virgenzinha de longe. E, desde a primeira vez que vim, as pessoas me diziam: “Rosy, por que você demorou 20 anos? Estamos esperando por você!”. A cada coisa que me diziam, tanto fora quanto em cima do palco, eu me emocionava e, obviamente, chorava, porque não esperava por tudo aquilo.
Além de War, passaram pelos dois palcos do Lambateria outros nomes consagrados da lambada e de subgêneros que a orbitam, como Adilson Ramos, Warilou, Lia Sophia e Companhia do Calypso. Além do próprio Félix Robatto. Durante o seu show, o idealizador do festival fez um discurso carregado de sentimento. "A gente está há 10 anos nisso, nessa resistência, trazendo artistas, os medalhões da lambada", e disse, ainda, que "não adianta eleger governo que é preconceituoso com Cultura", pedindo ao público que fizesse "o L de lambada".
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