Mas o que, então, o Catar ganha em troca? O prestígio trazido pela Copa do Mundo é suficiente para compensar a exposição negativa e os gastos bilionários?
Analistas da geopolítica do Golfo Pérsico explicam que, na verdade, o pequeno país concilia preocupações antigas com ambições de longo prazo nos cenários regional e global.
É preciso enxergar a Copa do Mundo como o ápice de um rápido - e ainda em curso - processo de reformas e abertura do Catar, explica à BBC News Brasil Chris Doyle, diretor do Conselho para Compreensão Árabe-Britânica (Caabu, na sigla em inglês).
Ele diz que o ponto-chave na história é 1995, quando o xeique Hamad Ibn Khalifa Al-Thani tomou o poder do Catar de seu próprio pai (e em 2013 abdicou em favor de seu filho, o atual emir Tamim Ibn Hamad Al-Thani).
Naqueles meados dos anos 1990, diz Doyle, o Catar era um país voltado para si, de população pesqueira e pobre, ainda incapaz de explorar plenamente suas reservas de gás e petróleo.
"Não havia a infraestrutura que tem agora, não se servia álcool em hotéis, não havia a Catar Airways, o aeroporto era muito pequeno. Hamad expulsa seu pai e assume o poder e tem uma agenda. Avança na infraestrutura do gás, e quer claramente tornar o Catar um destino para eventos - algo que é relevante para entender a Copa do Mundo", explica Doyle.
O resultado é que o Catar começou a construir museus, abrigar torneios esportivos internacionais (como os Jogos Asiáticos de 2006) e atrair universidades ocidentais para parcerias. Também passou a sediar a gigante midiática Al-Jazeera e uma base militar americana a partir de 1996, como forma de proteção contra seus vizinhos.
"Políticos britânicos que sequer sabiam que o Catar existia ou como pronunciar seu nome começaram a prestar atenção ao país. (...) Grandes eventos começaram a acontecer. Então a Copa do Mundo, de muitas formas, é o ápice desse processo. Não poderia ter acontecido sem todas essas mudanças que aconteceram antes. E acho que isso foi a forma máxima de dizer: 'o mundo vai vir a nós'. E isso, de certa forma, será o legado (do atual emir)."
O interesse do Catar em sediar a Copa foi justamente o ponto de partida do documentário de rádio "Como vencer a Copa do Mundo", da BBC Radio 4 , apresentado pelo jornalista David Conn, do jornal The Guardian e autor de The Fall of the House of Fifa (A Queda da Casa da Fifa, em tradução livre).
No documentário, Conn ouve especialistas que explicam que o pequeno país nunca terá um Exército de tamanho suficiente para garantir a própria segurança. Então, buscou outra estratégia na arena internacional.
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