Quando ainda estava em Salvador (BA), a trajetória de Tom Zé se entrelaça com as de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022), Gilberto Gil e Maria Bethânia – com os quais fez o histórico show “Nós, por exemplo” em 1964.
Tom Zé é do rebanho tropicalista. Mas logo deixou evidente que seria a ovelha desgarrada. É que Tom Zé nunca fez música para gerar mero sucesso comercial, nunca fez o jogo da indústria. Os jogos armados pelo cantor e compositor no palco ou no estúdio sempre foram puramente estéticos. Tom Zé é e sempre foi um erê que se recusa a entrar na roda-viva do mundo dos adultos sedentos de glória, poder, dinheiro e fama.
Na trajetória mercadologicamente errática, Tom Zé amargou o fracasso comercial de álbuns que somente seriam valorizados anos depois, sobretudo após David Byrne se deparar casualmente em 1986 com o já mencionado álbum “Estudando o samba” e se encantar com a inventividade do disco, compilando a obra de Tom Zé para CD do selo Luaka Bop e, na sequência, lançando pelo selo álbuns inéditos do artista, como “The hips of tradition” (1991) – o que deu prestígio e visibilidade mundial ao último romântico tropicalista.
O encontro de Byrne com Tom Zé em 1988, na cidade de São Paulo (SP), mudou a vida do artista baiano após anos de ostracismo e desânimos com a dificuldade de se fazer ouvir – o que fez Tom Zé cogitar a desistir da carreira e a voltar para a cidade natal de Irará (BA).
Tom Zé, contudo, perseverou e continuou em cena, recebendo as flores em vida. Álbuns gravados após a redescoberta – casos de “Com defeito da fabricação” (1998), “Jogos de armar (Faça você mesmo)” (2000), “Estudando o pagode” (2005), “Estudando a bossa” (2008) e “Tropicália lixo lógico” (2012) – dialogaram com títulos mais antigos como “Tom Zé” (1968), “Tom Zé” (1970), “Tom Zé” (1972), “Todos os olhos” (1973) e “Correio da Estação do Brás” (1978), encorpando discografia pautada pela coerência e pela determinação de inventar e reinventar continuamente uma obra que, entre quebras e ruídos, amalgama ecos dos cantadores do sertão, dos dodecafônicos vanguardistas e dos versos dos poetas concretos.
Aos 90 anos, Tom Zé segue confundindo, mas já não precisa explicar mais nada. Tom Zé é Tom Zé. E isso é tudo. E tudo já está esclarecido.
Tom Zé no palco do Circo Voador (RJ), na sexta-feira, 9 de outubro, no show em que celebrou os 90 anos de vida — Foto: Michelle Castilho / Divulgação Circo Voador
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