Ele passou quase quatro décadas tentando flagrar essas partículas que atravessam tudo sem deixar rastro e com uma ideia improvável: transformar o gelo do Polo Sul em detector.
"Quando começamos este projeto, todo mundo achava que talvez fosse uma boa ideia, mas poucos acreditavam que funcionaria, inclusive eu mesmo. Foi uma aventura em que o sucesso não estava garantido", disse Halzen.
Ele conseguiu e flagrou os neutrinos de alta energia da Via Láctea. A expressão da descoberta e do feito é tão expressiva que quebrou um jejum de mais de 30 anos sem que uma única pessoa levasse sozinha o prêmio Nobel de Física – a última vez foi em 1992.
Nobel de Física volta a ter um único vencedor depois de 34 anos com Francis Halzen Saiba quem é o Nobel de medicina, com pesquisa que mudou a neurociência
Mas, o que são afinal os neutrinos? é uma das partículas fundamentais da natureza, assim como o elétron. Ele surge em reações nucleares, como as que fazem o Sol brilhar, na decomposição de substâncias radioativas e em alguns dos eventos mais violentos do universo.
De acordo com os especialistas, essas são também as partículas mais abundantes que existem: a cada segundo, 65 bilhões de neutrinos emitidos pelo Sol passam pela unha do dedo mindinho de qualquer pessoa.
A questão é que ninguém percebe porque o neutrino quase não interage com nada. Ele não tem carga elétrica, tem massa quase nula e atravessa paredes, montanhas e o planeta inteiro como se fossem vazios. Isso faz dela a partícula mais tímida do Universo.
O que os especialistas apontam é que esse campo era um mistério, até o feito de Halzen.
O interesse dos físicos está nos neutrinos que chegam de muito longe. O espaço é cruzado o tempo todo por raios cósmicos, partículas que viajam com uma energia até um milhão de vezes maior do que a alcançada nos aceleradores da Terra. Ninguém sabe ao certo de onde elas vêm, porque são desviadas por campos magnéticos no caminho e chegam sem indicar a origem.
Os mesmos fenômenos que lançam esses raios cósmicos, como buracos negros gigantes e explosões de estrelas, também produzem neutrinos. E, como o neutrino quase não interage com nada, ele faz a viagem em linha reta, sem se desviar e sem ser barrado por poeira ou gás. Se for possível flagrá-lo, ele aponta, como uma bússola, para o lugar onde nasceu.
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