Maria Rita em momento denso da apresentação do show 'Redescobrir vol. 2' na casa Vivo Rio — Foto: Ricardo Nunes / Divulgação Vivo Rio
Se a grandeza do canto de Maria Rita é a mesma nos dois shows, os arranjos do tecladista e diretor musical Rodrigo Tavares elevam o segundo volume acima do espetáculo de 2012, orquestrado com maior reverência (mas sem fidelidade cega...) aos arranjos originais da discografia de Elis. Há um frescor nos arranjos de Tavares, inclusive pelos sopros do trombone de Samuca e do trompete de Vander Nascimento.
Os sopros mudam a atmosfera de músicas como “Essa mulher” (Joyce Moreno e Ana Terra, 1979) – uma das poucas interseções nos roteiros dos dois shows ao lado de composições como “Ladeira da Preguiça” (Gilberto Gil, 1973), “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc, 1979), “Maria Maria” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976) e a já mencionada “Como nossos pais” – e contribuem para a turbinar a swingueira de sambas como “Agora tá” (Tunai e Sérgio Natureza, 1980) e “Cai dentro” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1979), números em que Maria Rita exibe notável senso rítmico, se equilibrando com segurança na corda bamba do ritmo.
A beleza da cena é potencializada pelas imagens projetadas no cenário concebido por Batman Zavareze, algumas procurando expandir o sentido das músicas. Mas o fato é que tudo se apequena diante do canto de Maria Rita, imenso e intenso em “As aparências enganam” (Tunai e Sérgio Natureza, 1979), grande momento do show. É Maria Rita na mesma dimensão emocional e interpretativa de Elis Regina.
Introduzida pela pulsação do baixo largo de Carlos Júnior, a canção “20 anos blue” (Sueli Costa e Vitor Martins, 1972) é ambientada em apropriada atmosfera de blues. Já o samba-exaltação “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso, 1939) vem precedido por breve citação instrumental de “Querelas do Brasil” (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1978) com arranjo que cita a abordagem da música por Elis no show “Saudade do Brasil” (1980).
Na sequência, um batuque ancestral introduz a lembrança inesperada de “Zambi”, música de Edu Lobo com Vinicius de Moraes (1913 – 1980) lançada por Edu em 1964 no álbum “A música de Edu Lobo por Edu Lobo” e logo abordada por Elis em 1965 em gravação com o Zimbo Trio.
Em relação ao roteiro original da estreia nacional da turnê em Porto Alegre (RS), o show perde dois sambas, “O mestre-sala dos mares” (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e “Eu hein, Rosa!” (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1979), mas permanecem o choro-canção “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro, 1937) – cantado lindamente como se o palco da casa Vivo Rio fosse um salão de baile dos anos 1940 – e, claro, “Corcovado” (Antonio Carlos Jobim, 1960), música gravada por Elis em 1974 no álbum “Elis & Tom” e reavivada por Maria Rita com arranjo que inclui o violão afetivo do filho da cantora, Antonio Baldini, neto que Elis não chegou a conhecer.
Baldini integra banda que destaca Jorge Quinho na percussão – também (bem) marcada por Pedrinho da Serrinha – e Gabriel Quinto na guitarra e no violão de sete cordas. É uma big banda que executa muito bem os arranjos renovadores de Rodrigo Tavares, trunfos de show que repõe Maria Rita no devido lugar de grande cantora do Brasil. Uma Maria que tem um dom, uma certa magia e a capacidade de cair dentro do repertório de Elis Regina com toda a propriedade, renascida, honrando a mãe tanto no sentido musical como no político.
Quase 50 anos depois de ter parido a filha em 1977, Elis Regina dá novamente à luz a Maria Rita.
Maria Rita mostra impressionante domínio rítmico no canto dos sambas do roteiro do show 'Redescobrir vol. 2' — Foto: Ricardo Nunes / Divulgação Vivo Rio
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