Apesar de ineficientes contra a Covid-19, ivermectina distribuída com mensagem religiosa e hidroxicloroquina para tratamento precoce foram algumas das principais medidas da prefeitura
Já são 3105 casos confirmados e 106 mortes em Cáceres, que fica a 214 km da capital Cuiabá. Isso torna a mortalidade por Covid no município, de 94.376 habitantes, 60,45% maior do que no resto do país. Enquanto a taxa de mortalidade brasileira é, atualmente, de 70 por 100 mil de habitantes (a terceira maior do mundo), a de Cáceres é cerca de 112,31 por 100 mil habitantes, de acordo com dados do Ministério da Saúde do dia 8 de outubro.
Mas a resposta do prefeito Francis Maris (PSDB) patinou durante os primeiros meses da pandemia. No final de seu segundo mandato, o prefeito tem se concentrado em lançar a campanha de seu sucessor tucano Paulo Donizete — também infectado pelo SARS-CoV-2  durante sua pré-campanha, em agosto.
Em meados de junho, quando Cáceres estava entre as 12 cidades com maior risco de contaminação no Mato Grosso, houve decreto de toque de recolher e de dois lockdowns no município, após insistência do Governo Estadual. Mas a cidade pantaneira sofreu forte pressão de empresários locais para manter as atividades em funcionamento e o comércio aberto, colocando Maris em uma situação difícil. Empresário milionário dono do Grupo Cometa de viação e pecuária, o prefeito é dono de pelo menos 24 imóveis rurais no estado. 
Diante do impasse, a prefeitura apostou em outra estratégia contra a Covid-19: a distribuição de ivermectina, um medicamento contra vermes e parasitas cuja eficiência para prevenir a Covid-19 nunca foi provada por pesquisas científicas. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde jamais recomendaram o medicamento para impedir a infecção pelo novo coronavírus.
As 100 mil caixas de ivermectina adquiridas pela prefeitura de Cáceres começaram a ser distribuídas para a população em julho, em um centro de convenções da cidade. Em agosto, a prefeitura chegou a distribuir o medicamento nas comunidades rurais do município, por meio de uma Equipe de Atendimento Móvel. Em entrevista , Maris contou estar tomando a ivermectina a cada 15 dias para se proteger. 
A ação se tornou uma das principais iniciativas da cidade para combater o avanço da pandemia e foi amplamente divulgada em posts nas páginas oficiais da prefeitura em redes sociais. 
No dia 21 de julho, Maris publicou um vídeo no Facebook da prefeitura convidando quem ainda não havia tomado ivermectina a comparecer aos locais de distribuição.“Você que ainda não vem fazendo uso regular de ivermectina, pegue o seu Cartão SUS e vá até a Sicmatur ( Secretaria de Indústria e Comércio, Meio Ambiente e Turismo) ” . Mais adiante no vídeo, o prefeito lembra que o medicamento não “blinda você de pegar o coronavírus”, e que essa prevenção deve ser feita com isolamento e uso de máscaras. Em seguida, o psdbista afirma que o “kit com a cloroquina” também está disponível para quem está contaminado com o coronavírus e apresentando sintomas. O vídeo termina com o prefeito desejando que “Deus nos proteja”. 
Os comentários do vídeo no Facebook se dividem entre palmas, elogios, pessoas pedindo o kit e algumas questionando a funcionalidade de um medicamento preventivo que não previne. A essas últimas, a resposta da prefeitura foi uma comparação: “é prevenção você toma remedio para gripe a anos, e mesmo assim contrai gripe… Mas para nao pegar gripe existe cuidados,,, ,.” (SIC). 
O biólogo Vitor* conta que sua cunhada foi uma das pessoas que pegou as cápsulas de ivermectina no mês de julho, não somente para ela, mas também para a sogra idosa. “Ficou confuso porque primeiro as pessoas tinham que ir lá pegar com o cartão SUS e depois qualquer um podia pegar para você, levando sua identidade”, explicou. Apesar de tomar o remédio com o intuito de prevenir a doença, a cunhada e toda a família do irmão do biólogo testaram positivo para Covid-19 no mês seguinte. “Todo mundo teve febre, desgaste físico e outros sintomas”, disse Vitor. 
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