ITU - Toda grande tela nasce do estudo. Muitas vezes, o esboço pode revelar lados nunca percebidos ou pouco explorados de um artista. Esse é o argumento principal da exposição Tarsila: Onde Nascem as Imagens , no Museu FAMA (Fábrica de Arte Marcos Amaro), em Itu (SP), que apresenta 45 desenhos raros de Tarsila do Amaral (1886 - 1973).
Os trabalhos integram uma coleção ainda maior, de 204 folhas (algumas com desenhos na frente e no verso), adquirida em 2017 pelo fundador do museu e curador da exposição, Marcos Amaro . Empresário e artista plástico, filho do Comandante Rolim Amaro, o fundador da antiga TAM Linhas Aéreas (atual Latam), ele adquiriu a coleção após ela passar praticamente cinco décadas guardada na coleção pessoal do empresário Oscar Fakhoury.
Tarsila do Amaral. 'Paisagem com Bicho Antropofágico II', 1929. Foto: Museu FAMA/Divulgação / Estadão Após a morte de Fakhoury, a viúva do empresário encontrou os desenhos fechados em um armário e mostrou-se disposta a vender a coleção completa. Na época, a aquisição teve a intermediação de Aracy Amaral, crítica de arte que morreu no último dia 15 de setembro. Ela, que era filha de um primo do pai de Tarsila e especialista na obra da artista, foi responsável pela catalogação dos desenhos, cuja única exposição havia sido em 1969 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).
Agora, parte da coleção volta a público nesta mostra do maior museu do interior paulista - a apenas 41 km de distância da cidade natal de Tarsila, Capivari - com o objeto de ampliar a compreensão sobre o processo artístico de uma das mais importantes pintoras brasileiras. "O estudo é onde o artista está inventando, criando, pensando o que vale a pena ou não", diz Mauricio Korgiski, cocurador e responsável pela expografia da exposição.
Tarsila do Amaral. 'Estudo de A Negra', 1923 Foto: Museu FAMA/Divulgação / Estadão Em Tarsila: Onde Nascem as Imagens , o visitante verá desenhos que originaram algumas das pinturas mais famosas da modernista, como Estudo de A Negra (1923), esboço do quadro homônimo que integra o acervo do MAC USP, e Estudo Tatu, Bichos e Boneca Indígena (1924), com elementos do que viria a ser A Cuca (1924), obra clássica da Fase Pau-Brasil que pertence ao Musée de Grenoble, na França.
Para além destes estudos, também estão expostas algumas pérolas de Tarsila que nunca foram transformadas em telas, como o Estudo de Autorretrato de Cabelo Curto (1923) e Cemitério, URSS (1931), que Emerson Ribeiro Castilho, coordenador pedagógico da exposição, destaca como um importante documento histórico sobre a antiga União Soviética, a qual Tarsila visitou em 1931.
Tarsila do Amaral. 'Autorretrato de cabelo curto', 1923. Foto: Museu FAMA/Divulgação / Estadão Ao longo da exposição, os desenhos não são distribuídos de maneira cronológica, mas sim reunidos de forma a apontar temáticas semelhantes ou processos pelos quais Tarsila passou. A primeira parede, por exemplo, reúne desenhos realizados logo no começo da carreira, quando a artista estudou com o pintor paulista Pedro Alexandrino (1856-1942), cuja obra Natureza Morta (s/d), também integra a mostra.
Mais adiante, vemos uma sequência de estudos de nus artísticos realizados em 1923, provavelmente por influência do período em que a modernista frequentou a Academia Julian, em Paris, única instituição que, à época, permitia que mulheres estudassem o nu artístico.
Um dos maiores destaques é uma série de 1925 na qual a artista elaborou diversos desenhos de personagens do folclore brasileiro. O conjunto faria parte de um projeto em colaboração com Oswald de Andrade e Heitor Villa-Lobos, um espetáculo de balé inspirado pelas figuras, mas o musical nunca saiu do papel. Em Saci e Três Estudos de Bichos e Bicho Pernilongo , por exemplo, é possível ver como a modernista brincava com as formas animalescas, mesclando grafite e aquarela.
Tarsila do Amaral. 'Saci e três estudos de bichos', 1925. Foto: Museu FAMA/Divulgação / Estadão "Vemos um lado dela bem infantilizado. As pessoas acham que o artista tem que ser sempre muito adulto, muito culto. Não, tem que ter a essência da criança trabalhando", argumenta Korgiski. "Além disso, ela trabalha com as proporções distorcidas, tem o próprio traço. Acredito que ela levou esse lado mais infantil durante toda a vida dela."
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