Uma cratera vulcânica de 80 milhões de anos abriga, no sul de Minas Gerais, uma cidade inteira: Poços de Caldas cresceu dentro do que sobrou de uma antiga caldeira, cercada por montanhas que marcam os limites dessa estrutura.
Do subsolo dessa formação nascem fontes de água sulfurosa que chegam a 45°C, além de reservas minerais raras que atraem geólogos e turistas há gerações. A combinação rendeu à cidade um selo europeu de reconhecimento e uma ligação histórica com a realeza brasileira.
A caldeira tem cerca de 30 km de diâmetro e ocupa uma área de 800 km², emoldurada pela Serra de São Domingos.
Tudo começou no fim do período Cretáceo, quando rochas alcalinas empurradas de baixo elevaram o solo a mais de 500 metros do entorno — até que o centro perdeu sustentação e desabou, formando o planalto onde a cidade foi erguida.
Segundo o Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas, o relevo que existe hoje corresponde à parte interna da caldeira, e não à estrutura externa do vulcão original. Não há qualquer chance de nova atividade eruptiva: trata-se de um sistema extinto e estabilizado há milhões de anos.
O cheiro forte de enxofre e a textura levemente oleosa são a marca registrada das termas locais. A água percorre um trajeto longo sob a terra — infiltra-se no solo, é aquecida pelo calor que ainda resta da atividade vulcânica antiga e absorve minerais das rochas alcalinas antes de voltar à superfície.
Esse mesmo processo geológico moldou riquezas escondidas no subsolo. Foram identificadas 13 estruturas circulares dentro da caldeira, restos de pequenos vulcões que surgiram após o colapso principal, responsáveis pela formação de depósitos de bauxita, urânio, tório e elementos de terras raras.
A Assembleia Legislativa de Minas Gerais classifica o Complexo Alcalino de Poços de Caldas como um dos maiores maciços alcalinos do planeta.
Em 1886, Dom Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina visitaram as fontes termais, batizadas na época de águas milagrosas. O interesse da corte imperial deu à cidade prestígio entre a aristocracia do Brasil Império e até o nome do município nasceu dessa herança: uma homenagem a Caldas da Rainha, destino termal português também ligado à realeza.
Esse laço histórico se transformou em reconhecimento internacional décadas depois. Conforme a Prefeitura de Poços de Caldas, em 2017 o município assinou, na própria cidade portuguesa. A adesão à European Historic Thermal Towns Association, tornando-se a representante brasileira na rota europeia de cidades termais históricas.
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