De acordo com o pesquisador, a ausência de padrões rigorosos de emissão de poluentes, aliada ao uso de tecnologias industriais pouco eficientes e à fiscalização ainda incipiente, permitiu que grandes volumes de contaminantes fossem lançados no ar, na água e no solo .
A própria geografia local também contribuiu para agravar o problema. Localizada em um vale cercado pela Serra do Mar, a cidade apresenta baixa dispersão atmosférica, o que favorece o acúmulo de poluentes sobre a área urbana.
Durante algum tempo, os impactos da poluição foram percebidos de forma fragmentada. Mas, no início da década de 1980, estudos técnicos e epidemiológicos passaram a demonstrar que o problema era muito mais profundo.
Relatórios ambientais e análises científicas indicavam altas concentrações de poluentes atmosféricos como dióxido de enxofre, material particulado e compostos químicos tóxicos. Paralelamente, cresciam os registros de problemas respiratórios na população, e de alterações ambientais severas, como o comprometimento da vegetação da Serra do Mar.
Foi então que a crise de Cubatão ganhou repercussão nacional e internacional. Segundo Sergio Willians, tornou-se evidente que não se tratavam de episódios isolados.
Mas, como algumas crises levam a um lado positivo, este período também coincidiu com o fortalecimento da Cetesb , Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, que passou a implementar programas sistemáticos de monitoramento da qualidade do ar e exigir planos de controle de poluição das indústrias instaladas na região.
Para quem conheceu Cubatão naquele período, a crise ambiental não era apenas um tema técnico ou institucional, mas uma experiência cotidiana. O advogado João Ivaniel de França Abreu, que chegou à cidade em 1972, aos 17 anos, recorda com pesar as condições enfrentadas pelos moradores.
Residente na antiga Vila Parisi, bairro localizado próximo ao complexo industrial, ele descreve um ambiente marcado pela presença constante de poluentes no ar.
Segundo ele, a população convivia com problemas respiratórios frequentes e com sensação constante de impotência e insegurança diante das condições existentes. Como se não bastassem as doenças, João testemunhou também o nascimento de recém-nascidos com malformação.
Entre os acontecimentos mais traumáticos daquele período, desponta o incêndio ocorrido em 1984, na Vila Socó, provocado pelo vazamento de combustível em um oleoduto. A tragédia deixou número elevado de vítimas e marcou profundamente a memória coletiva da cidade. João Ivaniel lembra ter presenciado a dimensão do ocorrido.
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