Ao final do encontro os presentes divulgaram uma carta com um chamado: “se juntem a nós contra as falsas soluções no combate das mudanças climáticas e no enfrentamento dos grandes empreendimentos”
O 2º Seminário da Terra em Altamira (PA) reuniu cerca de 120 pessoas. Foto: Cimi Regional Norte 2
“Conhecemos a terra, os rios, os lagos, a medicina tradicional, os animais. Por isso, nem o governo, nem empresas, nem agronegócio, nem garimpo, nem madeireiro: ninguém vai nos derrubar!” A fala do cacique Kayapó, Kapran Poi, resumiu bem o espírito do 2º Seminário da Terra, realizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Norte 2, entre os dias 16 a 18 de julho, no Centro de Formação Betânia, da Diocese do Xingu, em Altamira, Pará. O Centro entrou para a história do movimento indígena por ter concentrado as mobilizações contra os projetos da Usina Hidrelétrica Kararaô (atual Usina Hidrelétrica) e Belo Monte.
Cerca de 120 representantes dos povos indígenas Xipaia, Arara, Curuaia, Xikrin, Kararao, Juruna, Yudja Juruna, Arapium, Tapajó, Tupinambá, Munduruku, Kumaruara, Guarani (Pará), Suruí, Amanaie, Tembé, Kayapó, Karipuna (Amapá), Galibi Marworno, Karipuna (Rondônia), Ka’apor, Huni’kui, Kaingang, Guarani (Mato Grosso do Sul) e Pankararu participaram do Seminário. Junto com missionários do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) discutiram sobre os temas “Mudanças Climáticas e seus Impactos; Mercado de Carbono e as Falsas Soluções e Desafios para a COP 30”.
A análise de conjuntura nacional sobre política indigenista foi apresentada pela secretária adjunta do Cimi, Ivanilda Torres Santos, demonstrando que os ataques aos direitos indígenas no âmbito dos três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) são fruto da influência do que se poderia chamar de “Quarto Poder”, exercido pelos grandes conglomerados financeiros que buscam minar a proteção aos territórios tradicionais para ter acesso às riquezas.
Uma das provas mais claras dessa influência foi a promulgação pelo Congresso Nacional da Lei 14.701/2023, do marco temporal, mesmo após o Supremo Tribunal Federal o ter declarado inconstitucional. Sob a justificativa de pacificar as disputas territoriais, o Ministro Gilmar Mendes, criar Câmara de Conciliação. O resultado, os processos de demarcação de terras indígenas estão paralisados.
A região amazônica tem sido instrumentalizada para fins econômicos. Lindomar Padilha, do Cimi Regional Amazônia Ocidental, denunciou como o grande capital se apropria do discurso de sustentabilidade para promover a exploração. O mercado de carbono, vendido como solução para desmatamento e queimadas é, na visão das lideranças, uma forma de mercantilizar a floresta, transformando-a em valor econômico para grandes empresas, enquanto os governos locais abrem caminho para madeireiras, mineradoras e monoculturas.
A criação da Amacro (iniciativa que visa integrar economicamente Amazonas, Acre e Rondônia) é um exemplo, carregando o nome de “sustentável”, mas reproduzindo velhas modalidades de exploração.
“O mercado de carbono, vendido como solução para desmatamento e queimadas é uma forma de mercantilizar a floresta”
Apesar das adversidades, a resistência dos povos indígenas é inegável. Lindomar Padilha ressaltou que a presença crescente de indígenas nas universidades e o uso de novas tecnologias são ferramentas importantes. No entanto, a verdadeira força reside na espiritualidade e identidade, que servem como “cimento” para manter os povos unidos em torno de seus direitos e de uma visão de mundo que transcende a lógica do lucro. Para Lindomar, resistência é questionar o discurso de desenvolvimento vendido pelo capital, considerando que este não se coaduna com os modos de vida dos povos tradicionais.
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